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10.3.1 - A LINHAGEM DA BRUXA


1.

Brianna atravessava com cuidado as ruas enlameadas de Boston. Em algumas semanas seria Natal e a neve tinha chegado mais cedo esse ano, deixando a cidade com aquele aspecto terrível de terra misturada com gelo. Naquelas condições, as moças de posses jamais colocariam um pé para fora de casa se não fosse numa carruagem. Mas ela era apenas uma jovem e humilde preceptora.

Às vezes se admirava que, com todos poderes de suas antepassadas, sua família jamais tivesse juntado fortuna. As premonições de Cassandra teriam sido muito úteis em apontar negócios que garantissem à sua descendente mais do que dinheiro apenas para pagar um quarto de pensão. “Bobagem!”, censurou-se, assim que aquele pensamento lhe veio à cabeça. “Nossos poderes não devem ser usados para o ganho pessoal”.

Brianna sabia muito bem por que era tentada daquele jeito. Ao atravessar a rua Tremont rumo à rica casa dos Preston, na tentativa quase sempre inglória de incutir alguma educação na mente dos três filhos do casal, ia também ao encontro do seu maior tormento.

Os Preston, Vincent e Emily, eram o típico casal de ‘novos ricos’. O pai de Vincent era pobre, mas fez fortuna na mineiração. Deixou o filho único em ótimas condições financeiras que, justiça seja feita, ele teve a maior habilidade em ampliar. Seu único excesso foi importar a esposa, Emily, diretamente da Inglaterra.

Emily Elsegood Preston vinha de uma família de nobres falidos. Seu pai, Lord Elsegood, perdera tudo no jogo e em negócios mal administrados. Mal pôde disfarçar a satisfação ao receber o então jovem americano solteiro e abastado em sua casa, e apresentar-lhes as três filhas, futuras condessas sem vintém. Vincent encantou-se sinceramente por Emily, e desde então fazia todos os desejos de sua esposa arrogante e exigente, que ainda por cima desprezava a América.

Mas para Brianna, nada disso interessava. Ela tinha preocupações maiores, como proteger-se dos ataques de eventuais demônios e manter sua identidade como bruxa em segredo, principalmente da dona da pensão onde mora. Tudo isso mudou quando o jovem John se tornou braço direito do Sr. Preston.

John Preston era primo de Vincent e já começava a juntar a própria fortuna, trabalhando na empresa do parente. Mas John lhe chamou a atenção muito antes, logo que começou a freqüentar a Mansão da família. “Você pode me ajudar a procurar um livro?”, ele pediu, a primeira vez que falou com ela. Brianna organizava as aulas para as crianças na imensa biblioteca da mansão Preston. Baixou a cabeça para atender ao primo do patrão e, lá pelas tantas sentiu a mão de John tocar-lhe delicadamente o queixo: “Seu rosto é tão bonito, não o esconda de mim”. Foi o que bastou. Brianna sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo de cima a baixo. Naquele instante, soube que seu destino estava inevitavelmente ligado àquele homem.

Os dois começaram a se conhecer melhor em conversar furtivas, nos intervalos das lições das crianças, nos horários de almoço dela ou quando tinha alguns minutos de folga. Ele jamais tentara se aproximar além do absolutamente respeitável. Até a tarde em que estavam na biblioteca, e ele lhe pediu um livro guardado na prateleira mais alta.

Brianna tinha lido isso num romance. A mocinha se desequilibrava e caia nos braços do seu amado. Pensou que seria uma boa idéia repetir a cena na vida real. Esperou que John se aproximasse, calculou o momento exato, e fingiu se desequibrar.

Mas alguma coisa deu errado. Seu pé ficou preso na pequena escada, e ela desabou lá de cima. John foi rápido, pegando-a no colo antes que caísse no chão. Brianna sentiu quando ele apertou seu corpo com força contra o seu. Os lábios dele roçaram seu rosto por mais tempo do que seria simplesmente acidental. O coração dela disparou; naquele momento, John poderia fazer o que quisesse... mas ele não fez. Colocou-a no chão, se desculpou e saiu, parecendo tão nervoso quanto ela mesma estava.

Aquelas lembranças tornaram o caminho mais agradável. Finalmente, Brianna chegou à porta dos fundos da Mansão Preston, por onde entravam os funcionários. Cumprimentou o mordomo e a cozinheira, e seguiu em direção à sala de estudos das crianças. Ao passar pelo corredor, entretanto, não pôde deixar de ouvir a conversa que vinha da porta entreaberta do escritório do Sr. Preston.

- “Você já está na idade de casar, John. Em breve vai assumir um posto de chefia nas empresas. Precisa pensar em ter uma esposa, uma família!”

- “Prefiro tratar desse assunto com mais calma, primo. Não acho que uma viagem para a Inglaterra seja a solução para o meu futuro.”

- “As moças inglesas dão ótimas esposas. Elas têm uma educação superior, e um jovem com uma carreira promissora como você precisa de uma companheira à altura. Uma nobre inglesa vai ajudá-lo a ter destaque na sociedade e dará uma ótima mãe para os seus filhos!”

O corpo inteiro de Brianna gelou. Ela queria andar, afastar-se dali, mas as pernas não a obedeciam. Não conseguiu evitar que os olhos ficassem cheios de lágrimas. “Uma esposa inglesa? Então John seria mandado para a Inglaterra em busca de um casamento vantajoso...” pensou. E começou a sentir-se uma completa idiota. Como pode achar que tinha alguma chance? “Uma nobre inglesa vai ajudá-lo a ter destaque na sociedade”, disse o Sr. Preston. E ele tinha toda razão.

Brianna forçou-se a apressar o passo. Era melhor tirar toda aquela ilusão da cabeça, e concentrar-se no que realmente importava: a missão que sua mãe deixara antes de morrer. “Você será responsável por manter viva nossa linhagem”, ela disse. “Tome cuidado: nosso futuro será ameaçado, e só você pode impedir isso”.

Até hoje, ela não entendia como, nem se sentia competente para salvar a linhagem das bruxas Warren. Mas aquelas palavras não lhe saiam da cabeça... Talvez por isso estivesse tendo todos aqueles sonhos estranhos, ultimamente.

2.

Piper Halliwell subiu apressada as escadas para o sótão. Aquelas eram as únicas horas do dia que ela tinha livre. Leo estava dando aula na Escola Mágica e os meninos brincavam na praça com a babá. Tino cuidava de tudo no restaurante. Com a vida perfeitamente organizada, só sua mente não a deixava em paz.

Ela separou seus ingredientes e, com muita paciência, procurou instruções no Livro das Sombras. Misturou algumas ervas, terminou a poção e colocou um pouco no conta-gotas. Delicadamente, deixou que algumas gotas caíssem sobre as algemas enfeitiçadas por Lilith, que prenderam as irmãs Halliwell em sua estadia em Pine Parrish... e foi jogada longe por uma poderosa explosão.

O rosto de Piper ficou cheio de fuligem, como alguém sem sorte que acaba de sair de uma brincadeira de dorminhoco. Felizmente, não se machucou. “Ufff!”, resmungou, limpando-se e sacudindo a poeira do corpo. Aquele feitiço que anulou seus poderes ia continuar sendo um mistério.

- “Paige! Paige, você pode vir até aqui?”

Em poucos instantes a irmã mais nova aparece, orbitando, no sótão da Mansão.

- “Tele-bruxa às suas ordens!”

Piper não pode deixar de rir do eterno bom humor da irmã. Mas Paige logo percebeu o desastre que tinha acabado de acontecer naquele lugar.

- “O que houve por aqui, uma explosão? Você não estava mexendo naquelas algemas de novo, não é?”

- “É claro que sim. Mas dessa vez achei que tinha feito tudo certinho... olhe, usei esse feitiço do Livro das Sombras”.

Paige lê e pensa por alguns instantes.

- “Feitiço para descobrir os ingredientes de uma poção... parece bom. Se não deu certo, talvez... a poção que está nessas algemas tenha algum ingrediente desconhecido!”

- “Como assim?”

- “Para provocar uma explosão, o que quer que tenha aí deve ser muito forte. E se o feitiço do Livro não reconhece o que é, esse ingrediente provavelmente veio de outro plano”, conclui Paige.

- “Alguma coisa que não veio nem do nosso mundo, nem do Mundo Inferior?”

- “Pode ser. Talvez devêssemos usar o Poder das Três para criar um novo feitiço e descobrir.”

Piper faz um sinal negativo com a cabeça.

- “Não quero interromper as férias de Phoebe. É a primeira vez que ela e Coop podem viajar juntos, Ter um tempo só para eles... vamos tentar resolver sozinhas!”

- “Ou então, esquecer isso de vez”, sugere Paige.

Piper solta um suspiro.

- “Sei que estou sendo meio obsessiva. Mas é como se tivesse uma voz dentro de mim, dizendo que é importante, que podemos estar correndo algum risco”.

Paige sorri para a irmã.

- “A intuição de uma bruxa nunca deve ser ignorada. Vamos, eu ajudo você. Vamos pensar em alguma coisa”.

E as duas se debruçam sobre o Livro das Sombras, tentando encontrar uma resposta.

3.
Brianna escutou uma batida forte na porta dos fundos da Mansão Preston. Mas ninguém atendeu, e a batida se repetiu. Com a demissão da cozinheira, o mordomo certamente estava atarefado junto ao fogão, e ela mesma teria que abrir.

Do lado de fora estava um jovem moreno e alto, usando uma camisa branca aberta no peito e botas de montaria. “Com todo esse frio, como ele pode vestir-se assim?”, pensou Brianna.

- “Sou Raul. O senhor Preston está me esperando” disse ele, entrando na casa sem a menor cerimônia.

- “Ei, onde é que você vai? Eu não disse que podia entrar!”, protestou Brianna.

- “Eu já disse que ele me aguarda. Vai querer que seu patrão se aborreça de ficar esperando por sua causa?”

Aquele argumento a enfureceu. Brianna tinha personalidade forte, e não ia deixar um desconhecido ir entrando na casa assim.

- “Pois que ele se aborreça! Nem por isso vou deixar qualquer um entrar sem se identificar!” disse, barrando o caminho dele antes que pudesse avançar mais. Foi quando ela ouviu a voz do mordomo atrás de si:

- “Pode deixar, Brie, ele é o novo cocheiro. Raul, não é isso? Não se preocupe, o senhor Preston está o esperando”

O mordomo conduziu o rapaz e voltou em seguida. Brianna tinha uma expressão incrédula no rosto.

- “Estamos precisando de cozinheira, e não de mais um cocheiro!”

- “É que o patrão comprou uma carruagem grande, de seis cavalos. Precisava de alguém experiente para levá-la”, explicou o mordomo.

“Coisa de gente rica!”, pensou a moça. “Não dão a menor bola pro que realmente é necessário. Cocheiro novo! E ainda por cima, um arrogante como esse!” Ela não tinha gostado nada daquele tal de Raul. Mas não ia se preocupar com isso. Estava quase na hora do jantar, e ela tinha que ir para casa.

Brianna calçou as galochas e respirou fundo. Nada pior que resvalar com aquele calçado desconfortável na rua cheia de lama, mas a senhora Reinolds detestava que sujassem o chão da sala, na pensão. Assim que chegou na porta, tirou as galochas e entrou sem deixar marcas.

- “Chegou atrasada de novo para a janta, mocinha. Você acha que eu tenho a noite inteira para ficar preparando comida?”

- “Desculpa, senhora Reinolds. O chão estava muito molhado, e tive que vir devagar”.

- “Desculpas, sempre desculpas!”, resmungou a mulher, servindo a contragosto um prato do ensopado presente em nove entre dez refeições na pensão.

Brianna comeu e foi para seu quarto, Não desejava passar mais tempo do que o necessário com sua senhoria. Lavou-se e trocou de roupa para dormir. Ainda que sem sono, se enfiou sob os lençóis. Ficou pensando no diálogo que acidentalmente tinha ouvido naquela tarde.

Imaginou John voltando da Europa com uma esposa inglesa. Por algum tempo, chegou a pensar que ele poderia retribuir o que ela sentia. Parece que estava enganada.

Esses pensamentos a perturbaram até altas horas, não deixando que descansasse. Quando finalmente dormiu, teve um sono leve, agitado, cheio de sonhos. “Preciso dormir, amanhã tenho que acordar cedo!”, pensou. Fechou os olhos e se viu numa caverna, cheia de instrumentos de magia: caldeirão, vassouras, velas, ervas. No fundo, uma mulher acalentava um bebê.

- “Ah, você chegou” disse, levantando a cabeça. “Eu estava lhe esperando. Sou Charlotte Warren, sua antepassada.”

Brianna sentiu-se tonta. Aquilo era um sonho?

- “Não tenha medo”, continuou Charlotte. “Você precisa me ouvir com atenção. Toda nossa descendência corre perigo. Podemos nunca chegar a dar origem às mais poderosas bruxas da história. E, você sabe: esse é o nosso legado”.

- “Mas o que eu posso fazer? Sequer domino bem o meu poder ainda... e não tenho a menor idéia de que grande perigo você fala!”

- “O perigo é que o poder que essa criança representa jamais seja usado para proteger os inocentes”, respondeu, acariciando o rosto do bebê. “Essa é Melinda, minha filha, que vai sacrificar sua vida pela nossa linhagem. A linhagem das bruxas Warren.”

Brianna conhecia a história de Melinda Warren como a palma da sua mão. Desde muito pequena ouvia sua mãe contar sobre como ela havia sido queimada na fogueira, mas conseguira manter sua filha a salvo. Antes de morrer, fez a previsão de que as gerações das Warren se tornariam cada vez mais fortes, até o surgimento de três irmãs, as mais poderosas bruxas boas que já existiram. Mas será que isso jamais viria a acontecer?

- “Há demônios, forças do mal envolvidas? Algum deles vai querer me matar? Diga: o que eu devo fazer?”, perguntou, confusa.

- “Você mesma deve procurar a resposta. Mas é importante que esteja atenta para evitar o pior!”

- “Eu... eu... não posso fazer isso sozinha! Se me atacarem, mal sei como me defender!”

Brianna acordou num sobressalto. Tremia e suava frio, com o coração aos pulos. Era apenas um sonho, enfim, igual aos que vinha tendo há semanas. Mas ela estava agitada e com medo, e sabia que não conseguiria mais dormir naquela noite.

4.

- “Vamos juntar um pouco de cardamomo. Sempre acho que ajuda”, diz Piper.

- “Ajuda a que?” pergunta Paige, incrédula.

- “No mínimo, a poção fica mais cheirosa.”

As duas riem, dissipando a tensão de ter que experimentar novamente uma poção naquelas algemas ‘explosivas’.

- “Bem... quem faz o teste?”

- “Deixa que eu faço. Você já voou pelos ares hoje.”

Paige pega o conta gotas e derrama um pouco do líquido sobre as algemas. Nada acontece.

- “Parece que vamos ter que começar de novo.”

- “Eu comprei umas especiarias indianas no mercado, ontem. Talvez alguma delas possa ajudar”, sugere Paige. “Espere só um minutinho enquanto eu orbito lá em casa para pegar.”

Paige desaparece no ar, e Piper mal acredita no que vê: em vez de sumir entre luzes como é de costume, ela desaparece numa chama, igualzinho a um demônio.

- “Paige! Paige! Volte aqui imediatamente!”

Sem compreender porque toda aquela gritaria, Paige volta, da mesma forma demoníaca de antes.

- “O que foi isso? Você viu o que fez?”, pergunta Piper, assustada.

Mas ela dá de ombros.

- “Não vi nada. O que aconteceu?”

- “Você orbitou igual a um demônio, com fogo e tudo!”

Paige arregala os olhos.

- “O que????”

Ela olha para as próprias mãos, então desaparece no ar e reaparece num segundo, apenas para comprovar o que a irmã tinha dito.

- “O que é isso? Será que é efeito da poção que inventamos?”

- “Mas você nem tocou na poção!”

- “Será que você também não foi afetada? Faça um teste! Use seu poder.”

Piper olha ao redor, procurando um alvo qualquer. Ela mira um vaso e faz o gesto para explodir. Imediatamente, uma bola de fogo sai de suas mãos.

- “Oh, não! O que fizemos de errado?”

Nesse momento, Phoebe e Coop aparecem bem no meio do sótão.

- “Emergência!” diz Phoebe, com um ar apavorado. “Vocês nem imaginam o que está acontecendo.”

Phoebe aponta para um canto do aposento, e uma língua de fogo se projeta do seu dedo.

- “Que tal isso? Pirocinese!”

- “Você não é a única. Piper está lançando bolas de fogo e eu... orbito igual a um demônio!”

- “Vocês estão sofrendo algum tipo de transformação”, diz Coop. “Fizeram alguma coisa para que isso acontecesse?”

- “Estávamos preparando uma poção, dê uma olhada.”

Piper alcança o papel com os ingredientes, que Coop analisa.

- “Aqui só tem ervas inofensivas, nada que possa causar esse efeito. Alguma outra coisa está transformando vocês em... demônios!”

As irmãs se olham com um ar preocupado. O que quer que esteja acontecendo, não é nada bom.


2 comentários:

Anônimo disse...

uma nova aventura começa
fico feliz de finalmente poder "viver" uma nova aventura das irmas Halliwell

Victor V. S. Salgado disse...

Ai naum via a hora de ver outro episodio tava morrendo de vontade todo dia eu entrava aqui pra ver ai q presente maravilhoso e é muito bom

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